I hate you, I love you... Capítulo 1


                Sempre havia pensado que um momento como aquele fosse ser o mais gratificante de toda sua existência. Sempre havia imaginado que, ver seu glorioso, imbatível e perfeito irmão ser rebaixado fosse fazer correr por seu corpo um fogo vitorioso tão forte que seria quase impossível mascarar seu sorriso de completo agrado. Mas não foi assim. Enquanto seu pai gritava aquelas duras palavras para Thor e retirava sua armadura violentamente, sentia algo desgostoso revirar dentro de si. Estaria com dó do irmão? Havia o incentivado a ir procurar briga em Jotunheim exatamente para isso, que fosse repreendido da pior forma possível, mas não contava que o loiro fosse ser banido daquela forma, ou melhor, não contava que se sentiria daquele jeito qualquer que fosse o resultado.
                O clima ficou tão horrível e a fúria de seu pai tão intensa, que achou melhor ir direto para seus aposentos. Havia sempre duas coisas que as pessoas esperavam dele: que sempre estivesse abaixo de Thor e que enganasse os outros para satisfazer sua inveja, portanto, ficar a mostra não parecia uma boa ideia. Forjou a melhor expressão de perda quando chegou ao palácio, e com a desculpa de não conseguir digerir aquilo, foi descansar.
                O largo corredor dourado que levava ia até seu quarto e ao do loiro estava mais vazio que o normal, aparentemente todos que trabalhavam no palácio haviam se reunido no salão principal, ou perto dali, para escutar a triste notícia. Foi no meio do corredor vazio e silencioso que memórias começaram a passar pela sua cabeça: quando brincavam por ali, quando Thor o levou nas costas para seu quarto quando havia se machucado, quando não conseguiam dormir de agitação e conversam a noite toda. Todas memórias infantis e felizes, parecia que até com ele sua mente queria pregar uma peça.
                Irritado com aquilo, foi rapidamente para a enorme porta de madeira adornada com ouro ao lado direito do corredor e entrou em seu quarto, jogando-se em sua enorme cama tentando recobrar toda sua maldade que parecia ter escapulido dele nos últimos minutos. Fechou os olhos de modo apertado e tentou lembrar-se do rosto confuso e desesperado de seu irmão ao ser desprovido de seu poder e arremessado para fora de Asgard. Tentou lembrar-se de como ele era irritantemente poderoso, popular, admirado e como ele sempre havia merecido aquilo. Mas tudo que conseguiu foi um aperto no peito ao lembrar daquela expressão desesperada.
                Talvez o problema fosse que tudo ainda era muito recente, e que infelizmente não podia se livrar tão facilmente do fato de que havia crescido com Thor, e que, por mais que desejasse seu mal, ainda era irremediavelmente uma pessoa muito próxima.
                Concluiu que era melhor dormir, provavelmente acordaria no outro dia com a mente um pouco mais estável e poderia finalmente aproveitar o primeiro dia oficial do começo de sua glória. Mas antes disso tomou um banho, sentia-se impregnado com o desagradável ar de Jotunheim e a terrível essência daqueles Frost Giants com quem batalhara mais cedo.
                Terminado o banho, colocou um robe e foi para seu quarto, abriu o enorme armário lustroso de madeira, cheio de adornos, e estava preste a abrir uma também enorme gaveta quando algo lhe ocorreu: aquele era para ser o grande dia de Thor, o dia em que seria coroado rei de Asgard, até mesmo vestes de dormir especiais haviam sido preparadas para ele.
 Hesitou um pouco em colocar o que estava pensando em prática, mas começar a usufruir de tudo que seu irmão tinha parecia um bom começo para aquela nova vida sem Thor, um bom começo para mostrar à sua própria mente que estava tudo certo e não havia nada de que se arrependesse.
                Abriu a porta de seu quarto, atravessou o corredor calmamente e abriu a porta do quarto do loiro do outro lado. Os quartos eram do mesmo tamanho, mas por algum motivo julgara que havia algo a mais no quarto do irmão, por mais que o número de mobílias também fosse o mesmo. Talvez fosse o estilo da decoração, tudo no quarto de Thor era imponente, as portas do armário eram mais majestosas e grossas, a cama possuía colcha e almofadas vermelho e douradas com estampas grossas e chamativas e as cortinas que cobriam as janelas e varanda eram mais vivas e de tecido mais forte. Já em seu quarto, as coisas eram muito refinadas e elegantes, mas passavam a impressão de fragilidade, as cores eram mais escuras e discretas, menos vivos. E era exatamente essa a diferença que todos viam nos dois irmãos: um era forte, iluminado e chamava a atenção por onde passava, enquanto o outro era mais frágil, discreto e com a mente tão escura quanto a cor de seus cabelos e cortinas.
                Lembrar-se de como estava sempre abaixo o fez enraivecer-se, mas também o fez afastar de sua mente qualquer pingo de dó que tivesse do irmão, e sem muita demora, pegou as roupas que estavam esticadas delicadamente na cama, para quando Thor fosse dormir aquele dia, e as vestiu.
                Outra onda de ódio invadiu Loki novamente assim que viu seu reflexo no grandioso espelho que ficava próximo da porta do banheiro. Não só as cores vermelho e dourado pareciam incompatíveis com sua figura, como a roupa estava razoavelmente grande e desajeitada em seu corpo. Não que fosse muito magro ou baixo, afinal, a barra da calça não estava arrastando no chão. Mas não tinha os músculos tão perfeitamente definidos quanto os do irmão e nem os ombros tão largos quanto o normal para os asgardianos, fazendo com que um deles ficasse para fora da gola.
                Sentiu uma vontade enorme de pegar uma das armas de decoração na parede e partir o espelho em milhões de pedacinhos junto com sua figura patética, mas o barulho que aquilo faria e a sujeira que deixaria com certeza chamariam a atenção para sua possível autoria e consequentemente para seu plano maligno de livrar-se do loiro.
                A melhor solução que arranjou para descontar sua raiva foi rasgar aquela roupa e atirar seus pedaços pela varanda assim que sentiu um vento forte o bastante para lavá-la para razoavelmente longe.
                Acabado seu ataque de ódio, voltou para seu quarto prometendo nunca mais voltar ao quarto de Thor. Aquilo já não importava mais, agora ele era um príncipe desgraçado, exilado, ele não estava mais ali para sempre se sobressair sobre todos, não estava mais ali para fazer Loki se sentir sempre inferior e menos amado e admirado.

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